Passados seis anos da Lei do Saneamento e com quase 50% dos brasileiros atendidos pelo setor privado de saneamento, vivemos neste fim de outono de 2026 um momento decisivo para o mercado de saneamento no Brasil. O setor enfrenta um cenário de “go / no go” em relação à participação da iniciativa privada em novos processos de leilão e concessão de saneamento.
Em uma primeira análise, podemos resumir em cinco pontos as principais razões deste recuo:
- Quantidade de contratos estressados (PE, RJ e AL). Entendendo por esse tipo de contrato aquele em que a sustentabilidade econômica, financeira e ambiental não está sendo alcançada;
- Alto nível de endividamento da grande maioria das empresas privadas do setor de saneamento;
- Alta taxa de juros;
- Dúvidas em relação ao impacto da reforma tributária no setor de saneamento;
- Perfil dos ativos remanescentes a serem colocados no mercado.
A partir dos itens acima, nos permitiremos imaginar algumas ações do setor privado que possam ser relevantes no redesenho deste novo momento do saneamento brasileiro:
- Revisitar o atual modelo de negócios que, em sua maioria, é de responsabilidade do BNDES;
- Propor um novo modelo que considere o perfil dos ativos remanescentes, ou seja, baixa densidade demográfica e predominância de população de baixa renda;
- Buscar a repactuação dos contratos estressados, tendo como referência iniciativas já realizadas em outros setores de infraestrutura, como as Rodovias (ANTT – 2023);
- Implementar nas operações de saneamento as novas tecnologias já disponíveis, buscando maior eficiência operacional;
- Investir fortemente na capacitação técnica e operacional das equipes, preparando profissionais para uma nova realidade do saneamento, cada vez mais orientada por eficiência, tecnologia, controle de perdas, automação, inteligência operacional e sustentabilidade financeira.
Mais do que nunca, o setor de saneamento precisará combinar engenharia, gestão, tecnologia e pessoas. Não haverá transformação operacional consistente sem profissionais preparados para operar sistemas mais complexos, interpretar dados, utilizar ferramentas digitais e tomar decisões mais rápidas e eficientes em campo.
O novo ciclo do saneamento exigirá empresas mais enxutas, operações mais inteligentes e equipes mais qualificadas. A modernização do saneamento dependerá da capacidade das organizações em incorporar inovação sem perder de vista a sustentabilidade econômica dos contratos.
Em resumo, estamos em um momento em que todos os stakeholders do saneamento devem refletir sobre o que podem fazer para que esses contratos sejam repactuados e que novos modelos viabilizem a retomada do interesse do mercado nos leilões futuros.
A universalização do saneamento continua sendo uma necessidade estratégica para o país. Porém, sua viabilidade dependerá cada vez mais da capacidade do setor de saneamento em construir operações sustentáveis, tecnicamente eficientes e preparadas para os desafios da próxima década.
SP, 19/05/2026
