Nos últimos anos, o saneamento brasileiro passou por uma profunda transformação. A necessidade de acelerar investimentos e cumprir as metas de universalização até 2033 trouxe ao setor uma série de novos modelos de contratação, concessão e parceria.
Entre essas alternativas, um formato tem ganhado destaque: as Parcerias Público-Privadas (PPPs) que dividem responsabilidades entre companhias estaduais e parceiros privados.
Ao contrário dos modelos de concessão plena, onde toda a operação é transferida ao setor privado, as PPPs estruturadas em regime de compartilhamento de atividades buscam combinar a experiência operacional das companhias estaduais com a capacidade de investimento, inovação e eficiência do parceiro privado.
A pergunta que surge é: esses modelos são sustentáveis no longo prazo?
A evolução dos modelos de PPP no saneamento
Durante muitos anos, o debate sobre saneamento ficou dividido entre dois extremos:
- Operação totalmente pública;
- Operação totalmente privada.
A experiência prática demonstrou que existem soluções intermediárias capazes de gerar resultados relevantes.
Nesse contexto, surgiram PPPs em que cada parte assume funções específicas dentro da cadeia operacional.
Alguns exemplos incluem:
- Companhia estadual responsável pelo relacionamento institucional e gestão comercial;
- Parceiro privado responsável por investimentos e expansão dos sistemas;
- Compartilhamento das atividades operacionais;
- Divisão entre produção de água, distribuição, coleta e tratamento de esgoto.
O objetivo é aproveitar as competências de cada agente para aumentar a eficiência do sistema como um todo.
Por que esses modelos têm atraído atenção?
A principal vantagem está na distribuição equilibrada de riscos.
Enquanto a companhia estadual mantém seu conhecimento histórico do território, relacionamento com municípios e experiência regulatória, o parceiro privado aporta:
- Capital para investimentos;
- Tecnologia;
- Ferramentas de gestão;
- Processos operacionais modernos;
- Capacidade de execução acelerada.
Essa combinação reduz barreiras que muitas vezes inviabilizam tanto modelos exclusivamente públicos quanto modelos totalmente privatizados.
A sustentabilidade econômica da PPP
A sustentabilidade de uma PPP não depende apenas do contrato.
Ela depende da capacidade de gerar equilíbrio entre:
- Receita;
- Investimentos;
- Custos operacionais;
- Indicadores de desempenho;
- Metas regulatórias.
Quando existe clareza na divisão de responsabilidades, mecanismos de governança bem definidos e incentivos alinhados, a tendência é que o modelo apresente maior estabilidade ao longo dos anos.
Por outro lado, contratos com atribuições mal definidas ou conflitos de competência podem gerar ineficiências e disputas que comprometem os resultados esperados.
O desafio da governança
Um dos fatores mais importantes para o sucesso das PPPs compartilhadas é a governança.
A coexistência entre dois operadores exige:
- Regras claras;
- Indicadores objetivos;
- Estrutura de fiscalização eficiente;
- Transparência na tomada de decisões;
- Mecanismos de resolução de conflitos.
Quando esses elementos estão presentes, o modelo tende a gerar ganhos operacionais importantes.
Quando não estão, o risco de sobreposição de funções e perda de eficiência aumenta significativamente.
Universalização exige cooperação
A meta de universalização prevista para 2033 representa um desafio sem precedentes para o setor.
Em muitos estados, o volume de investimentos necessário supera a capacidade financeira das companhias estaduais.
Ao mesmo tempo, nem sempre a transferência integral da operação é a solução mais adequada para todas as regiões.
As PPPs compartilhadas surgem justamente como um caminho intermediário capaz de unir:
- Conhecimento acumulado;
- Capacidade de investimento;
- Eficiência operacional;
- Segurança institucional.
Mais do que uma disputa entre modelos, o que está em jogo é a capacidade de entregar resultados concretos para a população.
E onde entra a capacitação?
Existe um aspecto frequentemente pouco discutido nas modelagens de PPP: a preparação das equipes.
A integração entre operadores públicos e privados exige:
- Alinhamento de processos;
- Padronização operacional;
- Novas competências de gestão;
- Conhecimento regulatório;
- Uso intensivo de tecnologia.
Sem capacitação contínua, mesmo os contratos mais bem estruturados podem enfrentar dificuldades na execução.
Por isso, a formação de profissionais capazes de atuar em ambientes híbridos torna-se um fator estratégico para o sucesso das PPPs.
Conclusão
As PPPs que dividem responsabilidades entre companhias estaduais e parceiros privados demonstram que existe espaço para soluções equilibradas dentro do saneamento brasileiro.
Quando bem estruturadas, essas parcerias podem combinar o melhor dos dois mundos: a experiência e o conhecimento das companhias estaduais com a eficiência, tecnologia e capacidade de investimento do setor privado.
A sustentabilidade desses modelos, entretanto, depende de fatores que vão muito além do contrato.
Governança, planejamento, regulação eficiente e qualificação profissional serão elementos decisivos para transformar essas parcerias em instrumentos efetivos de universalização dos serviços.
O desafio do saneamento brasileiro não será vencido por um único modelo. Será vencido pela capacidade de construir soluções que funcionem na prática e entreguem resultados para a sociedade.

